Mães famosas e filhos adotados
Martha Medeiros
Já comentei mais de uma vez, mas é o tipo de assunto que não custa reprisar: a adoção é um dos gestos mais generosos que há. Um homem e uma mulher que, por alguma razão, não podem ter seus próprios filhos tomam para si a guarda de um recém-nascido dando-lhe amor, conforto, educação e uma vida de oportunidades pela frente. Pouco importa ao casal que não haja laços de sangue, semelhança física ou que não conheçam a herança genética deixada pelos pais verdadeiros. O que importa é que a carência de todos, pais e bebê, foi preenchida, e que, dali por diante, será criado um ambiente familiar como outro qualquer.
É uma atitude que, até ontem, era de foro íntimo, mas que tem ganhado as páginas dos jornais porque muitas celebridades passaram a adotar crianças, mesmo aquelas que possuem condições de gera-los. De certa forma, é um bom exemplo a ser divulgado pela imprensa, ainda mais porque a maioria das crianças adotadas não é loirinha de olho azul, e sim crianças de raças e etnias diferentes das dos pais adotivos, o que ajuda a democratizar a escolha dos bebês.
Até aí, tudo perfeito, pois se está promovendo a adoção como um ato de afeto e responsabilidade. O que me deixa intrigada é se este ato que deveria ser realmente de afeto e responsabilidade não está virando apenas mais uma estratégia de marketing. É muito fácil uma pessoa famosa ir até um país miserável da África ou da Ásia e voltar de lá com um bebê no colo para exibir para os fotógrafos. Mas o que acontece depois que os fotógrafos recolhem suas câmeras e os flashes de apagam? Como é que fica o dia-a-dia?
Não se sabe. Ninguém está dentro da casa dos outros para testemunhar. Pode ser que o bebê seja cuidado por um staff de babás e enfermeiras e eu só saia com a mamãe superstar uma vez por mês, com os paparazzi todos avisados com antecedência. Ou pode ser que os pais sejam presentes e afetuosos como quaisquer outros, não importa se são atores, atrizes, cantores. O que se está fazendo aqui é pura especulação, mas a tendência de adoção entre pessoas famosas existe, está se ampliando e não duvido que se transforme, um dia, em apenas mais uma jogada de autopromoção.
Talvez eu esteja vendo coisas que não existem. É uma pena que a gente viva numa era tão voltada para as aparências e para a superexposição que um gesto bacana como adotar um filho possa ser questionado. Tempos atrás, eu seria a primeira a duvidar que um adulto, fosse ele a Madonna ou a Maria das Dores, fosse capaz de usar uma criança para fins tão fúteis quanto marcar presença na mídia, mas hoje nada tem me descido fácil. Ou fiquei mais cínica ou mais esperta, e nenhuma destas alternativas me envaidece. Tomara que eu esteja mesmo vendo coisas que não existem.
Domingo, 22 de outubro de 2006.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.